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INFORMATIVO
NÚMERO 5
Texto de 2009
Normatização
de Resgate no Brasil |
Introdução |
A
atividade de resgate técnico no Brasil ainda não
é regulamentada assim, as instituições
públicas de combate a incêndio e salvamento desenvolveram
suas próprias normas. Existem somente instruções
técnicas dos bombeiros militares, sendo que cada estado
tem autonomia para estabelecer os requisitos que lhe convêm,
ou para adotar informações contidas em instruções
técnicas de outros estados. No estado de São
Paulo há 48 manuais de emergência sendo que alguns
deles contemplam resgate em altura e espaços confinados.
Há vários anos o Ministério
do Trabalho, através da NR18, exige que trabalhadores
que atuam em espaços confinados sejam treinados para
resgate. A exigência era para que a cada 20 trabalhadores
que atuassem em espaços confinados, dois fossem treinados
para resgate. A nova NR33, a qual trata especificamente de
espaços confinados, trouxe maiores exigências
para resgate, mas aborda parcialmente esse tema. O motivo
óbvio desse fato é a complexidade do assunto
resgate, que não caberia ser tratado inteiramente na
NR33.
Recentemente foi criada uma comissão
de estudos para a elaboração da primeira norma
brasileira de resgate: “Qualificação e
Certificação de Profissional de Resgate em Altura
e em Espaço Confinado”, a qual está trabalhando
pela ABNT/RJ (Associação Brasileira de Normas
Técnicas). Embora o propósito dessa comissão
seja estabelecer as diretrizes para a qualificação
e certificação desses profissionais, foi-se
discutido, no final de 2008, que esta norma seria tão
somente uma norma de referência e não uma norma
empregada para a qualificação e certificação.
No entanto, essa suposta decisão não consta
da ata da reunião.
A criação de normas de resgate
para o ambiente urbano e industrial no Brasil é muito
importante e deve acontecer em um clima de cooperação,
humildade, ampla participação e muita responsabilidade.
Esse texto tem a intenção de colaborar com esse
processo, promovendo uma reflexão necessária
para esclarecer equívocos que alguns profissionais
especializados em cordas fazem sobre as operações
de resgate. |
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Resgate |
Os
problemas sobre o tema começam com a falta de consenso
sobre o termo resgate. No Brasil, os conceitos de “resgate”
e “salvamento” recebem diferentes significados,
de acordo com o entendimento de cada grupo. Para além
dos problemas básicos com definição,
percebe-se facilmente no mundo das atividades verticais que
muitos profissionais e esportistas acreditam que o domínio
de técnicas de cordas basta para credenciá-los
para a atividade de resgate. Comentários como “se
eu sei içar materiais também sei resgatar pessoas”
ou “eu sei resgatar, só não sei usar macas”,
mostra o quão longe essas pessoas estão de compreender
filosófica e tecnicamente a atividade de salvar vidas.
Deve-se entender que envolver-se com resgate
é acima de tudo comprometer-se com a vida. Todo esforço
e recurso empregado em ações de resgate visam
preservar a vida de pessoas, inclusive, e principalmente,
a própria. Além das dificuldades técnicas
que os ambientes e a condições do acidente impõem,
há uma grande carga emocional envolvida. O estado de
desespero das vítimas e o horror que as cenas de acidentes
podem gerar exigem muito do emocional de todos os envolvidos.
É um desafio aprender a lidar com essas emoções
sem reprimir valores como altruísmo, compaixão
e solidariedade. Os autores do livro Confined Space and Structural
Rope Rescue, no capítulo que trata da formação
de equipes de resgate, refletem sobre quais qualidades devemos
buscar em um candidato a resgatista e a conclusão deles
é que a preocupação com o próximo
é a mais importante e decisiva.
Outros valores como espírito de equipe,
capacidade de liderar ou de ser liderado, de avaliar, de planejar
e de organização são indispensáveis
e chegam a ser mais importantes que as aptidões físicas
e técnicas. Uma equipe eficiente de resgate não
precisa ser formada por “super heróis”,
com todas as aptidões e capacidades imagináveis.
As qualidades e as limitações de cada integrante
da equipe devem ser conhecidas pelos demais e consideradas
em cada planejamento e delegação de tarefas.
Por exemplo, alguém que não se sente bem utilizando
máscaras de proteção respiratória
pode ser o melhor da equipe em controles, planejamento e logística,
ou talvez seja o mais competente na montagem de sistemas fora
do espaço confinado. A liderança tem um papel
crucial em uma atividade que se caracteriza pelo trabalho
em equipe. Não basta reunir os melhores resgatistas
se eles não tiverem uma liderança reconhecida,
pois não conseguirão trabalhar de forma integrada
e consensual. Existe um ditado que diz: “pior que um
mal plano é ter dois planos”. Significa que o
mais grave em uma tentativa de planejamento e organização
é ter os membros da equipe tomando rumos diferentes.
Portanto, os valores que motivam as pessoas e a capacidade
delas em trabalhar em equipe se sobrepõem aos recursos
tecnológicos ou a sofisticação das técnicas.
É claro que não se deve deixar
de dar importância ao conhecimento técnico, pois
é ele que garante soluções eficientes
e seguras aos vários desafios que os cenários
de acidentes impõem. Neste quesito, um resgatista deverá
dominar além das técnicas com cordas, também
os procedimentos de atendimento pré-hospitalar e sistemas
específicos de avaliação e controle de
riscos, com destaque para os espaços confinados e as
áreas classificadas.
Outro fator importante, ao menos no Brasil,
é que os resgatistas atuarão em um serviço
de emergência, que é regulamentado pelo Ministério
da Saúde através da portaria 2048/GM, a qual
determina a formação dos profissionais desses
serviços. O termo “resgatista”, inexistente
na língua portuguesa, não é mencionado
na norma, porém, compreende-se que tal função
é contemplada na categoria “outros profissionais
responsáveis pela segurança”. Também
não há menção aos serviços
privados de resgate, no entanto estende a aplicação
de suas diretrizes ao setor privado de urgência e emergência,
com ou sem vínculo com a prestação de
serviços aos usuários do Sistema Único
de Saúde e, portanto, o serviço privado também
deve estar de acordo com ela. |
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Técnicas
de Acesso por Corda |
Americanos
e europeus aproveitaram muitas das técnicas consagradas
no meio esportivo para resolverem situações
de trabalho. Os Britânicos, por exemplo, aproveitaram
as soluções de acesso por cordas utilizadas
na exploração de cavernas européias.
Isso porque na Europa existem milhares de cavernas, entre
as quais cavidades verticais chamadas de abismos, com profundidades
que superam a cota de mil metros de desnível e com
uma dificuldade elevada de progressão pelo grau de
confinamento.
Com a necessidade de padronizar as técnicas
de acesso por corda, as principais empresas do Reino Unido
envolvidas com esse tipo de atividade criaram a IRATA - The
Industrial Rope Access Trade Association (Associação
Industrial de Acesso por Corda). O objetivo dessa associação
é promover o desenvolvimento de técnicas de
acesso por corda e assegurar que os profissionais credenciados
por ela trabalhem de uma maneira padronizada e efetivamente
segura. Já os americanos dispõem da SPRAT®
- The Society of Professional Rope Access Technicians (Sociedade
de Técnicos de Acesso de Corda Profissionais). A SPRAT®
é dedicada a promover o desenvolvimento seguro de padrões
de acesso por corda industriais no EUA, Canadá, México
e além. As técnicas de acesso por corda, nos
padrões atuais, conquistaram maior destaque no Brasil
com a exigência, por parte da Petrobras, da credencial
IRATA para todos os profissionais que executam serviços
que exigem o emprego de corda para o acesso e o posicionamento
de trabalhos em altura. Nos anos de 2007 e 2008 foram editadas
as normas brasileiras de Acesso por Corda. São elas:
“ABNT NBR 15475 – Acesso por Corda – Qualificação
e Certificação de Pessoas” e “ABNT
NBR 15595 – Acesso por Corda – Procedimentos para
aplicação do método”. Tais normas
foram baseadas no padrão IRATA. Seja pelo padrão
brasileiro ou pelo padrão europeu, o conjunto de técnicas
para os trabalhos de acesso por cordas é de boa qualidade,
pois utiliza técnicas consagradas há décadas
nas cavernas européias. Tais técnicas permitem
ao trabalhador uma boa mobilidade em ambientes verticais e
foram devidamente adaptadas às situações
de trabalho, com destaque ao maior rigor de segurança
se comparado com a versão esportiva.
O aspecto segurança é o fator
de maior valor desses padrões técnicos e é
reforçado com a capacitação dos escaladores
para procedimentos de resgate. Todo escalador industrial é
treinado para resgatar um companheiro de trabalho, sendo que
o conhecimento sobre esses procedimentos cresce conforme ascendem
na categoria profissional (Níveis I, II e III). Porém,
há uma limitação: o padrão IRATA
ou o ABNT preparam um escalador industrial para resgatar outro
escalador industrial. As técnicas prevêem que
a suposta vítima esteja equipada com os mesmos equipamentos
do resgatista e muitas das manobras utilizam os equipamentos
da vítima na montagem do sistema de resgate. Estas
manobras enquadram-se no resgate simples (ABNT) ou auto-resgate
(padrão esportivo), o qual é definido como uma
operação de salvamento em que a própria
equipe de trabalho, presente no cenário do acidente,
socorre a vítima sem o auxílio de recursos externos.
No entanto, se o acidente apresenta conseqüências
muito severas, há a necessidade da intervenção
de uma equipe com maiores recursos, tanto materiais quanto
humanos. As técnicas para resgatar uma vítima
que precisa ser transportada devidamente imobilizada são
mais complexas e utilizam equipamentos que não compõem
o kit básico de um escalador industrial, seja pelo
padrão IRATA ou ABNT. Portanto, um escalador industrial
somente poderá atuar como um resgatista em operações
complexas se tiver recebido treinamento especializado. |
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Resgate
no Brasil – Influências Internacionais |
Por
falta de normas específicas de resgate no Brasil, empresas
privadas e instituições públicas de salvamento
adotaram como base as normas americanas elaboradas pela NFPA
(National Fire Protection Association). A NFPA é uma
instituição americana sem fins lucrativos que
tem como missão reduzir os riscos de incêndios
e outros perigos à vida provendo e defendendo consensos,
padrões, pesquisas, treinamentos e educação.
Até mesmo a área de abastecimento da Petrobras,
em seu padrão de execução para resgate
em altura e espaços confinados, teve forte influência
das técnicas americanas, embora para os trabalhos que
exigem acesso por cordas tenha adotado o padrão IRATA.
Quanto à escola européia de
resgate, no Brasil conhece-se bem o padrão de resgate
da área esportiva, tendo sido ministrados treinamentos
de resgate em cavernas por equipes da Itália, da Espanha
e da França. No entanto há pouca referência
ao padrão europeu de resgate para ambientes urbanos
e industriais. |
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Prováveis
Conflitos |
O
projeto de norma redigido até a data de 2 de junho
de 2009, no item 5 - Descrição das competências
mínimas - determina que o resgatista deverá
ter no mínimo certificação de escalador
industrial nível I, conforme NBR 15475. Embora não
seja imprescindível, é razoável exigir
alguma experiência e conhecimento técnico prévios
para um candidato a resgatista, porém a exigência
de que o candidato seja um escalador industrial poderá
gerar conflitos por dois principais motivos:
Ético: tal exigência
poderá configurar uma tentativa de reserva de mercado;
Operacional: o quanto poderá
ser útil o conhecimento técnico fornecido pelos
cursos de escaladores industriais dependerá de qual
“Escola Internacional de Resgate” o Brasil usará
de referência para a normatização das
suas operações. Se seguirmos o padrão
europeu, referindo-se ao que se conhece, que é o padrão
esportivo, terá grande aplicação. Por
exemplo: o atendente da maca, que acompanha as manobras de
içamento ou de descida da vítima, movimenta-se
em uma corda paralela e para isso utiliza as técnicas
de acesso por cordas. O fato da “linha principal”
trabalhar com o peso de uma única pessoa possibilita
a utilização de equipamentos que fazem parte
da rotina de um escalador industrial. Caso se respeite a forte
influência das normas da NFPA no Brasil, as técnicas
de acesso por cordas padrão ABNT terão pouca
aplicação, pois os equipamentos e as soluções
técnicas diferem em muito, começando pelo rigor
do fator de segurança dos americanos e a conseqüente
exigência de resistência dos equipamentos. |
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Sugestões |
É
preciso promover uma participação maior e mais
ampla na elaboração dessa norma. É fundamental
um número maior de profissionais participantes e com
maior representação nacional.
Sugere-se encontrar uma forma de patrocinar
a locomoção dos coordenadores desse projeto
para outros estados brasileiros onde a discussão da
norma possa receber contribuições.
Seminários poderão ajudar a
reunir profissionais de destaque para debater a realidade
do resgate técnico no Brasil e os possíveis
rumos dessa normatização.
A pesquisa, a tradução e o
estudo das normas internacionais, sejam americanas ou européias,
poderá acelerar os trabalhos e garantir a qualidade
dos resultados.
Trazer para o Brasil profissionais de países
de primeiro mundo poderá ajudar na seleção
das referências que poderão ser utilizadas na
normatização nacional. |
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Considerações
Finais |
Nesse
estágio da discussão é precipitado determinar
competências que não sejam genéricas –
“é colocar o carro na frente dos bois”.
É preciso primeiro definir o padrão de técnicas,
procedimentos e equipamentos, antes de se exigir qualificações
como a de certificação de escalador industrial
ou qualquer outra dessa natureza. |
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Texto:
Luiz Eduardo Spinelli
Colaboração:
Marcello C. Vazzoler
Diretor Geral da Vertical Pro
Dr. Oswaldo Alves Bastos
Neto
Sub Coordenador de Equipes Especiais do SAMU 192 Salvador
Metropolitano
Avaliação técnica:
Beto Barreto
Profissional de acesso por corda, credenciado IRATA nível
III
Luiz César Freire
Capitão PM do Corpo de Bombeiros do Estado de São
Paulo
Paulo Miguel Echeverria
Profissional de acesso por corda, credenciado IRATA nível
III
Revisão de texto:
Ana Carolina Siedschlag |
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